Noé – Pela crueldade dos homens…

20140114170936noah_poster_2014Noé sempre foi um projeto de paixão para o cineasta Darren Aronofsky. Fascinado pela figura desde que precisou escrever uma redação para a escola sobre ele, Darren foi nutrindo pensamentos e filosofias sobre Noé, até canalizá-los em forma de uma graphic novel que saiu somente na França. e que durou apenas uma edição (inclusive é o capítulo que nomeia este post). A graphic novel era um projeto de Cinema que se concretizou agora com o lançamento de Noé nas salas do mundo inteiro.

O projeto já nasceu polêmico: iria retratar uma das passagens mais emblemática da Bíblia e preencher as lacunas com interpretações pessoais do diretor com livros apócrifos que não foram incluídos na edição da Bíblia como a conhecemos. A trama, porém, mantém a essência do texto original: Deus está zangado com a Humanidade e decide exterminá-la de maneira desesperadora: através de um dilúvio onde as águas dos céus se encontrarão com as águas da Terra. O único a saber disso é Noé, através de visões perturbadoras que recebe do próprio Criador. Acompanhado de sua família e de gigantes anjos caídos conhecidos como Guardiões, Noé parte na empreitada de construir uma arca para abrigar a si mesmo, sua família, e os animais da Terra.

Noah-2014-Movie-Images

O filme não se acanha em mostrar sangue ou violência, apesar de não ser uma splatter party. O roteiro poderia muito bem se situar na Era Hiboriana das histórias de Robert E. Howard, ou mundo pós apocalíptico bem avançado no futuro. As histórias do Antigo Testamento da Bíblia são repletas de violência e retratam um Deus implacável e nada misercordioso, e os cineastas mostram isso na maneira em que o personagem título é influenciado pelas visões que tem: Noé, aos poucos, vai se tornando um monstro guiado por um propósito invisível, e se sentimos simpatia por ele mesmo depois de seus terríveis atos e decisões, é por conta da interpretação de Russell Crowe.

Falando nele, não há sequer um elo fraco no elenco, ainda que o desenvolvimento de personagens deixe um bocado a desejar. A dupla Emma Watson e Logan Lerman surpreendem com os arcos dramáticos de seus personagens e a maneira como os interpretam; Douglas Booth, apesar do importante papel de primogênito de Noé, pouco faz em cena, sendo ofuscado por Watson, e Jennifer Connelly permanece uma incógnita até a segunda metade do filme, quando finalmente mostra a que veio. Ray Winstone interpreta Ray Winstone, e Anthony Hopkins ficou com o personagem mais ingrato do roteiro. Seu Matusalém serve mais como ferramenta de narrativa do que como ser humano, e isso me deixou um pouco incomodado. Mais sorte tiveram Nick Nolte, Kevin Durand e Mark Margolis, que apenas com suas vozes, deram dignidade e peso dramático aos belos Guardiões.

Como católico, em nenhum momento o filme me pareceu ofensivo ou “blasfemo”. Como já apontei, a história de Noé têm apenas 3 ou 4 páginas na Bíblia. Aronofsky, em parceria com o roteirista Ari Handel, criaram uma história que apesar de soar fantasiosa demais para um épico bíblico, não foge muito do que é descrito em muitos outros livros contidos na Bíblia. Aplaudo a abordagem do diretor para contar a história da “Arca de Noé” com ares de blockbuster, mas um bem diferente do que estamos acostumados a ver. Visualmente, é uma obra muito bonita, com belas composições do fotógrafo Matthew Libatique, onde destaco as visões de Noé sobre o dilúvio, e a sequência onde este narra a criação do Mundo como contada no livro do Gênesis, com um toque interessante de Darwinismo no meio da mistura.

Noé é um blockbuster interessante, provocador, visualmente espetacular e cheio de cenas memoráveis, que funciona bem como obra cinematográfica. E pra mim, isso é o que mais conta.

Noé (Noah, 2014)

Diretor: Darren Aronofsky – Roteiro: Darren Aronofsky e Ari Handel – Música: Clint Mansell – Fotografia: Matthew Libatique – Edição: Andrew Weisblum

Russell Crowe (Noé); Jennifer Connelly (Naameh), Emma Watson (Ila), Ray Winstone (Tubalcaim), Logan Lerman (Cam), Douglas Booth (Sem), Nick Nolte (voz de Samyaza), Kevin Durand (voz de Og), Anthony Hopkins (Matusalém)

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2 respostas em “Noé – Pela crueldade dos homens…

  1. Republicou isso em World Fabi Bookse comentado:
    Quem aqui não quer saber como a nossa querida Mione (Emma Watson) e o nosso querido Percy (Logan Lerman) se saíram em Noé?

    Posso adiantar que foram incrivelmente bem!!

    Pena que eu não vi um filho de Poseidon controlando o dilúvio ou a inteligentíssima bruxinha dando um jeito de criar uma barreira para a arca… rs…

    Brincadeiras a parte, vocês não podem perder mais uma resenha obra prima do nosso colaborador Gustavo Valente!!

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